segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Meu Testemunho de Conversão

Testemunho de Tiago de Castro Menta
Aos irmãos da Igreja Adventista do Sétimo Dia – Central de BH
Belo Horizonte – Minas Gerais (setembro de 2013)

Deus não desiste do homem. Como um predador no meio de uma savana, Ele nos espreita, procura[1]. Podemos até relutar, tentar fugir e escapar de sua presença poderosa, imponente. Contudo, não deu pra resistir. Ao menor espaço deixado no coração, por mínimo que for, lá o Senhor buscará morada. E como uma pequena célula, multiplica-se.

Toda conversão, aconteça no tempo que for, é um milagre. Em meio ao presente tempo do fim, em que a humanidade se consome no individualismo e na indiferença, converter-se é uma decisão ainda mais revolucionária. Renunciar o profano, o mundo, e deter-se no caráter de Cristo, na Lei de Deus, é um milagre. E quando vislumbramos os enganos do adversário dentro de igrejas, aí sim, quão revolucionário é aceitar inteiramente Jesus e ser, também, inteiramente obediente ao Senhor.

Como o apóstolo Paulo, um dia chamado como Saulo, eu de certa maneira perseguia os cristãos. Não com a violência física, aos desmandos e incompreensões do romanismo, mas com a violência de ideias e palavras. Ideias motivadas por doutrinas e filosofias do homem[2], “loucuras” aos olhos de Deus. Mesmo assim, em meio a tantos erros, Deus escolhera Saulo, convertido a Paulo, como àquele que evangelizaria aos gentios, a homens e mulheres que como ele eram ignorantes na fé.

Por muitos anos pensava-defendia o ateísmo como a atitude correta de compreensão do mundo e da vida. Minha formação marxista[3] como historiador (e o marxismo é um bom instrumento metodológico-político, não filosófico) reforçava esta atitude. Contudo permanecia uma série de questões mal-resolvidas psicológica-existencialmente. Em certos momentos era solitário, e triste, ser ateu.

A origem da vida, do mal, o destino dos homens, sentidos para o viver, o incômodo ao lidar com a morte (uma recusa interna em simplesmente morrer, numa vida proposta pelo caos e o vazio do Universo – frio, muito frio) eram inquietações alocadas nos limites da minha (in)consciência.

Em paralelo, muitas foram as oportunidades de um contato religioso e através de alguns antigos relacionamentos conheci variadas manifestações cristãs: Torre da Vigília (instituição dos Testemunhas de Jeová, ou Watch Tower), Movimento Carismático Católico, e sempre reagia mantendo o coração fechado (escondia-me na crítica). “Sorte” ou não, hoje dou graças pois o Santo Espírito é insistente[4]!

Tudo começa a mudar com alguns eventos em minha vida pessoal: a perda de meu amado tio Mário[5] (maio de 2011), e principalmente o casamento com Adriana (janeiro de 2012), professora de História como eu e adventista desde tenra idade (creio que ela se batizou com 9 anos de idade).

De maneira sutil minha esposa me incentivava a estudar a Palavra de Deus, e eu, de certo modo levado por curiosidade e desejo de aprender iniciei, em casa, a leitura da Bíblia. Em seguida, começamos a acompanhar, atentos, vídeos de pregações (via youtube), a maioria de caráter escatológico, do pastor Samuel Ramos (IASD de Boston – Massachusetts/EUA). A análise historicista sobre a Palavra de Deus, a compreensão de profecias contidas nos livros de Daniel/Apocalipse, foram elementos que chamaram, e muito, a minha atenção. Devagar ia aparecendo a vontade de ir ao templo, assistir um culto[6].

Em meados de fevereiro do presente ano vivia eu algumas decepções no trabalho, repleto de incertezas e dúvidas (ser professor, educador, no Brasil traz, infelizmente, muitos momentos de grande dificuldade e provações). Ao mesmo tempo, e para nossa alegria Adriana descobriu-se grávida, se avizinhando a paternidade (nossa pequena Catarina deve nascer agora próximo ao dia 14 de outubro). Foi o momento em que o Espírito Santo age e diz: “Vá”. E lá fui com minha esposa ao templo da Igreja Adventista do Sétimo Dia na região central de Belo Horizonte, onde “coincidência” ou não o amigo Pastor Paulo Nogueira iniciava os seus trabalhos naquela comunidade na mesma manhã de sábado.

A comunidade adventista da igreja central de Belo Horizonte nos recebeu com os braços abertos, e rapidamente frequentamos a escola sabatina (na classe do irmão Mário Valério). Quão dialético e democrático os cultos da igreja do Senhor, agregando a comunidade a partir dos dons que cada membro recebera do Alto. À pedido de minha esposa o Pastor Paulo Nogueira (que curiosamente atendeu ao apelo dela no meio de uma estrada, durante viagem) passou a ter comigo momentos semanais para estudos bíblicos, que aliado aos estudos da lição da escola sabatina, a leitura curiosa do Espírito de Profecia (manifestado em uma diversidade de textos e obras da estadunidense Ellen G. White, como ‘O Grande Conflito’ apresentando os destinos do mundo e momentos cruciais da guerra cósmica entre Deus-Jesus e Satanás, ‘O Desejado de todas as nações’ como uma rica e detalhista biografia de Jesus, etc) acabaram por enraizar em meu ser não somente as verdades que eu sempre busquei, mas também a alegria de integrar-me numa família imensa de homens e mulheres de Deus.

Muitos aqui podem ler e achar que foi e está sendo fácil tamanha transformação pessoal, não, não é assim que as mudanças ocorrem. Como o vaso nas mãos do oleiro[7], Deus primeiro quebranta o nosso antigo ser, e esta quebra, dói. Muitos pecados, muitos, tem sido enfrentados desde então. Reconstruir-se não é simples, e Deus, somente Nele podemos reunir forças e coragem para este processo intenso de destruição do ego e entrega total aos caminhos do Senhor. Deixar de ingerir álcool, frequentar ambientes e diversões noturnas, encarar o porco como animal de imundícia e impróprio para consumo nestas Minas Gerais onde historicamente a sua culinária é quase derivada de suínos (torresmo, bacon, gordura), separar tempo para dedicar-se a Deus e as coisas de Deus (como o preparo semanal e culto familiar), dizer não ao trabalho nos Sábados (como professor desde então tenho me ausentado de todas as reuniões pedagógicas, festejos, comumente realizados aos sábados em todas as nossas escolas) são atitudes que exigem fé, comunhão com Deus. Pois sabemos, o caminho é estreito. Vale lembrar, todo este “sofrimento” é muito, muito pequeno, quando comparado ao sacrificar-se de Cristo na cruz. E nossa vida, neste mundo decaído e que retém a atenção de todo o Cosmos sobre ele, é uma luta, diária, entre forças do mal e forças do Senhor. Vivemos, em alusão ao que profetizou a sra. White, um “grande conflito”, muitas vezes dentro de nós mesmos. Lembremos Paulo, que diz:

“Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo (...) Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado.” Epístola de Paulo aos Romanos; Romanos 7: 14-25.

Costumo lembrar esta passagem e comentar se até o santo pregador Paulo demonstra, neste e em outros textos, a sua luta diária consigo mesmo, que dirá eu, cristão jovem e saído das águas a tão tenro tempo. Isso, irmãos, não é para assustar ou desanimar ninguém, pelo contrário, pois esta luta, parte de nossas vidas, tem na promessa do Senhor, na esperança que Ele nos deixa, de sua volta definitiva e justiça, que seremos recompensados com o maior de todos os prêmios: a salvação, e por consequência, a vida eterna próximo ao trono e presença de Deus[8]!

Se serei salvo, somente o Senhor Jesus poderá julgar-me e ao mesmo tempo, dar-me forças para conseguir o meu intento. As lutas são diárias, mas este é o “bom combate”, procurando manter-se firme, fiel, em comunhão com Deus e seus princípios. Deus foi misericordioso, comigo e minha família, tirando-me das amarras das loucuras humanas e transformando uma união de jugo desigual em uma família adventista que luta contra o pecado e busca alcançar a salvação eternal.

Gostaria que este meu testemunho chegasse a você, homem e mulher, jovem ou adulto, que como eu um dia pensava ser a religião uma espécie de conto de fadas para uma massa ignorante, e eu bem sei até onde este tipo de pensamento pode nos levar[9]. Achar que damos conta da vida sozinhos, que bastamos a nós mesmos, é esquecer que o peso que carregamos é pesado, muito pesado (hoje sei que o peso é herança do pecado do mundo), e que vai chegar a hora de estender a mão e gritar por socorro. De certa maneira eu gritei por socorro, e ainda grito. Mas o peso em minhas costas diminuiu, pois há quem possa me amparar, consolar e guiar os meus caminhos: Deus.

Desejo aos que agora me leem que possamos todos nos encontrar, junto ao Pai, na Terra renovada que virá, juntamente com Cristo e sua justiça. E ai, não mais prantos, dores e sofrimentos. Breve será...



[1] “Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto (...) Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a mão (...) Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? (...) Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos.” (Salmo de Davi; Salmos 139: 1-23)

[2] “Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, faça-se estulto para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus, porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles. E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos. Portanto, ninguém se glorie nos homens.” (I Coríntios 3:18-21)

[3] Para os irmãos que não estão familiarizados com o termo, marxismo é um conjunto de ideias, pensamentos, visão de mundo, construídos a partir das obras do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), que ao lado do seu companheiro, o também alemão Friedrich Engels (1820-1895), elaboraram as bases do dito Socialismo Científico.

[4] Hoje eu pressinto que Deus me direcionou para a Igreja Adventista do Sétimo Dia, de maneira especial. Eu poderia ter abraçado o catolicismo (religião predominante em minha família), o espiritismo kardecista (tenho uma tia que inclusive fez uma dita cirurgia espiritual), e até mesmo as doutrinas das Testemunhas de Jeová, mas não. A igreja remanescente, que guarda devidamente a Lei de Deus, que foi preparada nestes tempos do Fim, esta, pelo amor de Deus e misericórdia, foi a que o Senhor apontou em minha vida, de modo que eu o Conhecesse inteiramente, em verdade.

[5] Meu tio morreu, inesperadamente, aos 57 anos de idade. Vivia em Alfenas-MG, não deixando filhos. Sofreu um derrame fulminante, abalando muito a minha família. Eu mesmo, sentindo-me fraco e incapaz diante da perda, me recusei em ir ao funeral. Ser ateu diante de uma perda familiar deste tamanho era uma situação que me causava ainda maior tristeza, pois eu não sabia nem o que dizer a alguns familiares.

[6] Eu cheguei a deixar minha esposa uma vez na porta da igreja e voltei pra casa. Ela acabou, desanimada, não mais retornando ao templo. É difícil quando dentro de uma família não há acordo religioso, a fé fica um pouco “manca”, menos fortalecida.

[7] “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? – diz o Senhor; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.” Jeremias 18:6.

[8] “...ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” Apocalipse 21: 3-4.

[9] Este é o grande mal da humanidade, provocado pelo pecado: o egoísmo. Vivemos em mundo marcado por desigualdades gritantes, injustiças, numa sensação vendida aos quatro cantos que somos e estamos “cada um por si”. É a selvageria de uma ordem capitalista, que aliena o ser humano de tal modo que o ser curva-se diante do ter, da materialidade e das coisas como senhoras dos destinos de muitos. Não é difícil entender, pelo estudo da Palavra de Deus, porque as riquezas e mesmo os homens ricos desviaram-se dos caminhos do Senhor. Este mundo, do tempo do Fim, é onde a humanidade mais demonstra este amor ao “deus-dinheiro”, que possui uma natureza demoníaca. Daí é comum querermos encontrar soluções para o mundo a partir do próprio mundo, achando que do meio de tamanha podridão possa surgir a transformação, ou melhor a revolução. Eu mesmo pensei mudar o mundo, compreendê-lo segundo o uso de minha razão e buscar em teorias, filosofias, na mente humana proposições para a construção de um amanhã melhor, de um paraíso entre nós, produzido por homens! Que engano. A solução para este mundo não está dentro dele mesmo, pois este mundo é marcado pelo pecado, e Deus já anunciou que este mesmo mundo passará. Temos que nos santificar, dar as costas para o mundo e suas armadilhas de pecados, e esperar que no momento da grande justiça, estaremos ao lado do Senhor num outro lugar, numa nova Terra, a nova Jerusalém estabelecida a partir do histórico monte das Oliveiras.

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