terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Uma análise de Starway to Heaven

“E enquanto corremos soltos pela estrada
Com nossas sombras mais altas que nossas almas
Lá caminha uma senhora que todos conhecemos
Que brilha luz branca e quer mostrar
Como tudo ainda vira ouro
E se você ouvir com atenção
A canção irá finalmente chegar a você
Quando todos são um e um é o todo
Ser uma rocha e não rolar”
Led Zepellin – Starway to Heaven (Escadaria para o Paraíso)

Primeiramente vamos analisar, com profundidade, os versos acima retirados da canção “Escadaria para o Paraíso” do grupo Led Zepellin, para então apresentar uma síntese central da mensagem da música.

A estrada em questão é a estrada da vida, este caminho longo, tortuoso, e que nos permite fazer uma centena de escolhas, de caminhos a seguir – seja para praticar o bem, seja para praticar o mal.

As sombras são reflexos luminosos, ou seja, algo produzido materialmente, ou mesmo um fenômeno natural. Se estas são mais altas que nossas almas isso nos remete a uma lógica materialista, apontando o real como o aqui/agora, do homem economicus, que age e transforma a natureza. Além disso, pode ser compreendido como na máxima sartriana de que não existem essências, mas tão somente a existência.

Durante a canção fica claro que a senhora que todos conhecemos, ou melhor, conheceremos é a morte – evento comum a todos os seres viventes, que passam pela estrada da vida.

O mais significativo é esta idéia, marxiana, da unidade das coisas na coletividade. Todos são um (a sociedade) e o um (sociedade) é o todo (a mesma sociedade) – em síntese, há uma igualdade essencial entre todos, que aponta para uma sociedade coletivista. Da mesma forma, em termos metafísicos poderíamos entender que somos todos iguais perante a imensidão do cosmos e que não há diferença real entre eu, você, a lua, os planetas, o mar, apontando para uma cosmologia onde o ser humano não possui nada de especial, sendo mais um elemento de uma única fonte, o Universo.

Por fim ser uma rocha é ser convicto, é manter-se forte, resistente, perante as perplexidades da vida (é não rolar, não sucumbir, não se deixar cair na lógica errada – que é comprar uma escada para o Paraíso).

Na canção o Led diz que uma mulher tem por intenção comprar uma escada para ir para o Paraíso, ou seja, adquirir o tão sonhado passaporte para os céus, junto aos justos e a Deus-Pai (na concepção clássica monoteísta, em especial cristã).

Mas ele avisa, as aparências enganam, e nem tudo que reluz é ouro, e o brilho desta escada, a luz que vem deste suposto Paraíso não passa de uma farsa. E mais, que esta busca é um erro. Durante a canção há um verso que cita o personagem clássico do folclore europeu do Flautista (que em conto da Idade Média toca sua flauta para atrair todos os ratos da cidade, hipnotizando-os, até levá-los para o derradeiro fim dentro de um rio) e quem seria este mesmo Flautista no contexto da canção? As religiões, os religiosos, que tocam suas flautas, mágicas, levando-nos a crer que devemos sempre procurar por esta escadaria, a escadaria que conduz ao Paraíso.

Daí a canção, necessária, proposta pelo Led, de que nos vários caminhos da vida podemos escolher simplesmente viver, intensamente, mesmo sabendo que devemos ser rochas para suportar a música tocada pelo Flautista (e se dermos ouvidos a esta vamos, mesmo sendo rochas, começar a rolar, a cair nesta busca pela escadaria). E o importante, nossas sombras são maiores que nossas almas! E todos são um e o um é o todo! 

3 comentários:

  1. Adorei a análise, nem todas as pessoas têm uma percepção aguçada como a tua para fazer a leitura do subtexto das letras de músicas e dos textos literários em geral. Isso denota uma grande sensibilidade (artística também) de tua parte, além de toda a questão política subjacente. Esse é um ótimo exercício para se fazer em sala de aula, em todas as disciplinas, pois estaremos dando ênfase à interdisciplinaridade e, quem sabe, um dia, à transdisciplinaridade. De qualquer maneira, fica dado o recado, este texto poderá remeter a outro (intertextualidade) levando mais pessoas a interessar-se por esse processo analítico. Outra coisa importante é a questão de se trabalhar o hipertexto em sala de aula, não podemos ficar subestimando a linguagem tecnológica. Beijos da amiga que te adora, gaúcha por natureza, que fala "tu" e "tri legal".

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  2. Obrigado pelos elogios gaúcha tri legal...
    Realmente toda forma de arte, como uma música, um vídeo, um poema, quadrinhos, artes plásticas, possui um potencial inerente de multiplicidade de olhares, de mecanismos do conhecer.
    Esta é a minha visão sobre esta canção, e ela não é a única, muito menos a única válida. Contudo, é necessário querer conhecer, estudar, ter esta abertura para ai sim adquirir uma carga que permita tornar o simples olhar um olhar múltiplo, crítico, abrangente.
    Beijos do sempre amigo, prof. Tiago Menta.

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  3. Agora que amo mais ainda essa música! PERFEITO!!!

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