A partir da participação do colega historiador Leandro Karnal no último "Roda Viva", exibido em 04/07/2016, foi elencado um debate sobre a possibilidade ou impossibilidade de uma "Escola sem Partido", projeto que eu particularmente desconheço. Karnal posicionou-se extremamente contrário ao projeto, desafiando todos nós a apresentarmos uma aula, especialmente uma aula de História (que no particular é o meu ganha-pão) onde não estivesse presente algum componente político.
O filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., conhecido youtuber, rechaçou a argumentação de Karnal rememorando os exemplos culturalistas, especialmente os franceses da revista Annales, e até mesmo quando do trato com a história da ciência, etc.
Esta é uma questão polêmica. Toda aula de história tem algum componente político?
Corremos um sério risco, reduzindo a ciência histórica como parte de um fenômeno, seja político, cultural, narrativo.
Entendo que para desnudarmos adequadamente a questão devemos lembrar, sempre, onde afinal acontecem as aulas de História. Claro, no ambiente escolar. E sob duas características preponderantes: na modalidade da educação básica, e em escolas da rede pública de ensino.
E aqui está, no meu entendimento, a chave do "castelo" para responder se é possível ou não uma "escola sem partido" - ensinamos, eu, praticamente todos os professores brasileiros (mesmo que em algum momento da carreira docente) numa escola pública, que dados indicam reunir mais de 80% dos estudantes do país.
A escola pública é, essencialmente, parte componente do Estado, enquanto instituição, seja em níveis municipal, estadual ou federal. E se é parte do Estado, se mantém vínculos estruturais e institucionais com aquilo que politicamente definimos como Estado, logo, ela é parte do "poder".
E por esta qualidade, intrínseca ao Estado, a escola pode até pretender ser "sem partido", mas ela concretamente não o será, porque a educação não ocorre fora de uma estrutura social, ampla, e enraizada no poder, nas instituições.
A discussão vem à luz, nos dias que vivemos no Brasil, em face a uma espécie de luta contra a esquerda, que estaria se utilizando da cultura, e aqui inserida a escola, para doutrinar gerações de modo a perpetuar grupos no poder (vide os anos Lula-Dilma). E assim, se justificaria uma vigilância ou reorientação ideológica nas escolas, de maneira a torná-la sem partido. Mas, como isso é possível se a escola é ligada ao MEC, às secretarias de municípios e estados, recebe investimentos internacionais como do Bird, é organizada segundo interesses e visões de partidos e grupos de intelectuais ligados a partidos, que sustentam programas de governos de prefeitos, governadores, etc.
Caso a educação fosse um componente pessoal, do núcleo familiar preparando os seus jovens, talvez poderíamos pensar numa escola apolítica. Porém, a escola é serviço social, organizada numa rede, num sistema, que foram estruturados muito mais por burocratas do que por educadores. E aqui, como descartar a existência do componente político, mesmo se em sala de aula você está ensinando os hábitos culturais dos povos ameríndios pré-colombianos? Quem definiu que você deve ensinar isso? E quando? E por quanto tempo? E que informações passar? Como avaliar se os alunos aprenderam? Quais os sentidos de se aprender isso, para a realidade vivida pelos seus alunos?
Mesmo com toda a abordagem culturalista, marcante na historiografia das últimas décadas, o ensino é uma prática, sine qua non, política.
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domingo, 10 de julho de 2016
É possível uma escola (ensino) sem partido?
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Historiador e educador brasileiro. Nascido em São Paulo (12/08/1978), radicado em Belo Horizonte (onde viveu por 26 anos) e atualmente vivendo na cidade paulista de Atibaia (60km da capital São Paulo). Graduou-se (como bacharel e licenciado) como Historiador no ano de 2006 no UNIBH/ou FAFI-BH (recebendo prêmio em março de 2007 como destaque acadêmico do curso de História de sua universidade).
Atuou em projetos de pesquisa, na prefeitura (Centro de Referência Áudio-Visual)de Belo Horizonte sob coordenação da historiadora dra. Heloisa Greco/UFMG; além disso é um dos organizadores do acervo Carmela Pezzuti.
Como educador atuou na rede pública de ensino mineira desde 2004, quando ainda era universitário. Tivera experiências na escola da comunidade judaica de BH, e por mais de um ano fora professor-monitor do curso de História do UNIBH nas disciplinas História Medieval e Brasil República I. Desde 2014 é professor efetivo do Estado de São Paulo, e desde janeiro de 2015 tornou-se professor da educação básica do Colégio Atibaia, parceiro do Sistema Etapa de Ensino.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Bento XVI já é passado: sinais de tempos estranhos
Poucos, muito poucos, terão a oportunidade de vislumbrar, ou melhor reviver, os eventos dos dias que vivemos: a renúncia de um Papa e a escolha de um novo líder católico com seu antecessor ainda vivente! Histórico, e inusitado obviamente.
Fui pego, assim como milhares e milhares, em completa surpresa. Quando minha esposa me chamou no último dia 11/fevereiro dizendo que o Papa havia renunciado ao cargo confesso que pensei ser uma brincadeira ou mesmo alguma leitura confusa que ela estaria tendo ao consultar a internet.
Somente o tempo, marca primordial da História, somada a curiosidade de todos nós, elucidarão, com maior ou menor grau, as razões e os ditames que moveram o cardeal Joseph Ratzinger a literalmente "largar o osso", ou melhor largar o anel do pescador.
Tudo o que se diz, via imprensa, é mera especulação: problemas de saúde (dores intolerantes nas articulações, problemas cardiovasculares, etc), crise de consciência, disputas políticas internas ao Vaticano, incapacidade e esgotamento psíquico ou espiritual (em resumo o peso do cargo e de suas responsabilidades), pressões e ameaças, e até mesmo como fato profético ou semelhanças (anunciando tempos difíceis para a humanidade, numa era de catástrofes e escatologias).
Pessoalmente acredito que Bento XVI deixou o poder por pressões internas ao Vaticano, que vão desde a sua dificuldade em liderar uma igreja conservadora diante de um mundo secularista até mesmo a seu tímido posicionamento diante de fatos que colocam em xeque a autoridade católica - em especial nas denúncias contra clérigos pedófilos, ou no vazamento de informações sigilosas por pessoas próximas ao Papa. Sobre as doenças, a idade avançada do brilhante teólogo alemão, não creio, ainda mais após o martírio público de João Paulo II, que seriam razões suficientes para que Ratzinger deixasse o cargo, que lembremos, não é um cargo comum! Ser eleito Papa não é como assumir um serviço público simples, é missão transcendental, com tradições milenares e simbolismos, além de grande poder (moral principalmente).
Consequentemente, quando o cargo entrar em vacância no próximo dia 28, Ratzinger será submetido a uma vida de reclusão e silêncio (imaginemos a experiência de um homem que pode dizer-se como ex-Papa, quantos segredos teria em sua memória?); e um novo pontífice será eleito em conclave a ser realizado em meados do mês de março (nem adianta especular nomes, apesar de crer que a Igreja já trabalha esta sucessão desde já, inclusive apontando internamente direcionamentos e nomes). Além do sumisso de Ratzinger, seu ato de renúncia, por mais que a oficialidade clerical diga o contrário, é, verdadeiramente, um "tiro no pé" da Igreja romana: renunciando ao papado este cargo passa agora por um processo de dessacralização, retirando-lhe parte de sua autoridade e referencial.
Aguardemos os fatos e a nova escolha. Mas que estes são tempos estranhos, são com toda veracidade!
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Historiador e educador brasileiro. Nascido em São Paulo (12/08/1978), radicado em Belo Horizonte (onde viveu por 26 anos) e atualmente vivendo na cidade paulista de Atibaia (60km da capital São Paulo). Graduou-se (como bacharel e licenciado) como Historiador no ano de 2006 no UNIBH/ou FAFI-BH (recebendo prêmio em março de 2007 como destaque acadêmico do curso de História de sua universidade).
Atuou em projetos de pesquisa, na prefeitura (Centro de Referência Áudio-Visual)de Belo Horizonte sob coordenação da historiadora dra. Heloisa Greco/UFMG; além disso é um dos organizadores do acervo Carmela Pezzuti.
Como educador atuou na rede pública de ensino mineira desde 2004, quando ainda era universitário. Tivera experiências na escola da comunidade judaica de BH, e por mais de um ano fora professor-monitor do curso de História do UNIBH nas disciplinas História Medieval e Brasil República I. Desde 2014 é professor efetivo do Estado de São Paulo, e desde janeiro de 2015 tornou-se professor da educação básica do Colégio Atibaia, parceiro do Sistema Etapa de Ensino.
domingo, 11 de novembro de 2012
PT e PSDB acham que o Brasil é os EUA
A polarização política em torno de PT e PSDB é prejudicial à pretensa democracia nacional. A cada período eleitoral podemos observar o desejo, sutil e crescente, de uma terceira ou até quarta vias político-partidária para o país. O PSB está ai para nos mostrar que é possível (exceção ao caso de BH, onde os socialistas de ocasião se esgueiram entre o lulismo e o aecismo).
Observo, a cada ano que se passa (e utilizando o fato de trabalhar para o Estado de Minas Gerais a alguns anos como educador) que PT e PSDB tem muito mais pontos em comum do que a mídia política e os próprios partidos tentam contrariar. Ambos são filhotes de uma centro-esquerda que se esconde sob o véu da social-democracia, uma ideologia do clássico "em cima do muro": nem popular, nem liberal; nem conservadora, nem libertária. Ou seja, um vai-não-vai que se casa muito bem com a geléia geral política brasileira.
O mais ridículo é que ambos querem transformar a política nacional num modelo estadunidense, de factual bipartidarismo; o sonho de Lula, FHC, Dilma, Serra e demais é transformar a briga dos dois partidos em algo como republicanos e democratas!
Porém esquecem que aqui ainda é Brasil, não a "América" rica e fragmentada do norte. Nossa miscigenação histórica já indica que concentrar as coisas por aqui é sinal de desconhecimento de nossas raízes. Somos plurais e múltiplos, somos muitos brasis e brasileiros, um povo multi-etnico, multi-político, multi-isso e aquilo o mais....e projetos de polarização como desejam tucanos e lulóides estarão quase sempre condenados ao fracasso.
Historiador e educador brasileiro. Nascido em São Paulo (12/08/1978), radicado em Belo Horizonte (onde viveu por 26 anos) e atualmente vivendo na cidade paulista de Atibaia (60km da capital São Paulo). Graduou-se (como bacharel e licenciado) como Historiador no ano de 2006 no UNIBH/ou FAFI-BH (recebendo prêmio em março de 2007 como destaque acadêmico do curso de História de sua universidade).
Atuou em projetos de pesquisa, na prefeitura (Centro de Referência Áudio-Visual)de Belo Horizonte sob coordenação da historiadora dra. Heloisa Greco/UFMG; além disso é um dos organizadores do acervo Carmela Pezzuti.
Como educador atuou na rede pública de ensino mineira desde 2004, quando ainda era universitário. Tivera experiências na escola da comunidade judaica de BH, e por mais de um ano fora professor-monitor do curso de História do UNIBH nas disciplinas História Medieval e Brasil República I. Desde 2014 é professor efetivo do Estado de São Paulo, e desde janeiro de 2015 tornou-se professor da educação básica do Colégio Atibaia, parceiro do Sistema Etapa de Ensino.
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