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sábado, 20 de fevereiro de 2016

Passado e presente, a relatividade do conhecimento histórico

Há tempos eu falava, escrevia, que o sentido de estudar e conhecer a História não era, pura e simplesmente, ir ao passado pelo passado, visitá-lo como algo inerte, morto.

A justificativa para o trabalho, quase detetivesco, do profissional da História, recai sobre o tempo presente, ou seja, são as necessidades e questionamentos do hoje que tornam necessário a ida ao passado, ressuscitando-o de um sono profundo, não da morte definitiva. O passado e o presente são parte de uma totalidade viva, confundida com a própria existência.

O passado vive, em conluio com o tempo presente, não como um saudosismo ingênuo, mas como um referencial constante, uma medida.

Costumo em sala de aula, no trato com o tema da "Teoria da História", comum quando se quer definir a nossa disciplina, mesmo na educação básica com crianças e jovens, dizer que para nós historiadores infelizmente não se construiu uma máquina do tempo, para que pudéssemos, in loco, tirar análises e conclusões mais fidedignas com a realidade da época e da vida. Temos então que tirar o "pó da sala" e caçar migalhas no chão, através do uso de uma infinidade de fontes históricas que nada mais são que um mosaico do real, ou como um gigantesco quebra-cabeças que talvez nunca se complete. E assim, o fazer história é um eterno projeto, é um fazer-se constante.

Isso é que o dá sabor às humanidades, e fica até mesmo difícil pensar em consagrar teses, falar em verdades, dar veredicto. O terreno das ciências humanas é acidentado, e você pode ficar decepcionado porque o caminho parece não ter fim, mas a graça deste fazer-se é justamente o andar, o caminhar, não o destino.

Aquele que procura pela verdade vai se decepcionar, pelo menos se depositar todas suas fichas nas humanidades. Estou sendo relativista? Como não o ser... 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Adeus mestre Hobsbawm (1917-2012)

Entramos na primeira semana de outubro em luto: perdemos o mestre Eric Hobsbawm, historiador britânico (apesar de nascido em terras egípcias no ano revolucionário de 1917) que particularmente influenciou, e muito, a minha formação acadêmica como profissional da História.
Hobsbawm era figurinha carimbada nas aulas de história moderna, história contemporânea, historiografia marxista, e discutiu, como poucos, as intensas transformações ocorridas no que o autor dizia "o breve século XX". Além disso produziu ricas análises sobre o terrorismo, a globalização, a formação dos estados modernos, os movimentos revolucionários e contrarevolucionários, etc. Em suma, um intelectual de verdadeira envergadura.
Vale ressaltar que a grande mídia ao informar a morte do historiador dizia ser Eric Hobsbawm "dos últimos historiadores marxistas", oras, ledo, e não desproposital, engano. O marxismo vive! Aqui vos fala e escreve este historiador paulistano de nascimento e mineiro de coração.
Dai o trato diferenciado pegando como gancho dois falecimentos quase simultâneos: a morte da apresentadora, cantora, e ícone da sociedade do espetáculo em sua versão brasileira, não menos conservadora, Hebe Camargo, e por fim o nosso intelectual revolucionário Hobsbawm. Na primeira vemos um sem fim de homenagens e odes, e neste último uma oportunidade para reafirmar a morte de todas as utopias, postas como inválidas diante desta sociedade espetacular e imaculada na ordem do Capital e do Mercado.
Hobsbawm vive. Quando em sala de aula denunciamos a miséria do mundo, as injustiças sociais e o sofrimento de todas as maiorias, quando como profissionais contribuimos com o desenvolvimento do olhar crítico e engajado de nossos jovens, ai sim, a figura do historiador britânico viverá em meio a dialética do viver de cada profissional da História.
Minha eterna gratidão ao mestre,
Tiago Menta » historiador, e marxista, como Eric Hobsbawm.